Escalada no Oriente Médio pressiona petróleo e dólar, mas mercado mantém expectativa de corte da Selic em março

A intensificação do conflito no Oriente Médio reacendeu preocupações nos mercados financeiros internacionais e ampliou a volatilidade de ativos como petróleo e moedas de países emergentes.

No Brasil, a nova rodada de incertezas ocorre a poucos dias da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para 17 e 18 de março, quando o Banco Central deverá decidir os próximos passos da taxa básica de juros. Apesar do cenário externo mais adverso, economistas avaliam que o início do ciclo de cortes da Selic segue como hipótese predominante, ainda que o ambiente global possa influenciar o ritmo das reduções ao longo do tempo.

Para Leonardo Costa, economista do ASA, o choque geopolítico eleva o grau de incerteza, mas ainda não altera de maneira relevante o cenário central da política monetária brasileira. Segundo ele, o conflito pode aumentar prêmios de risco e gerar oscilações nos mercados, porém é prematuro assumir efeitos duradouros sobre inflação, câmbio ou condições financeiras internas. Na avaliação do economista, a tendência é que o Banco Central mantenha a estratégia previamente sinalizada e inicie o ciclo de flexibilização com um corte de 0,50 ponto percentual na reunião de março.

A alta recente do petróleo é apontada como um dos principais fatores de atenção. A commodity acumula valorização relevante em curto período, refletindo temores de interrupções na oferta e maior instabilidade na região produtora. Ainda assim, Costa afirma que a autoridade monetária tende a reagir mais à persistência do choque e aos impactos sobre as expectativas de inflação do que a movimentos pontuais nos preços internacionais. Ele ressalta, no entanto, que um aumento prolongado e expressivo do petróleo poderia alterar o cenário, especialmente se gerar repasses consistentes para os preços domésticos.

O economista Augusto Mergulhão compartilha a avaliação de que o corte deve ocorrer, mas admite a possibilidade de ajustes na intensidade das reduções ao longo do ciclo. Segundo ele, como o Copom já indicou a intenção de iniciar o processo de queda dos juros, seria necessária uma desancoragem significativa das expectativas de inflação para que o corte não se concretizasse. Para Mergulhão, o impacto do conflito tende a se concentrar mais no ritmo das reduções do que no ponto de partida. Em um cenário de guerra prolongada e maior pressão inflacionária, a redução poderia ser de 0,25 ponto percentual, em vez de 0,50, adotando uma trajetória mais gradual.

Mesmo com sinais recentes de desaceleração da inflação no Brasil, o cenário externo permanece no radar do Banco Central. Fatores como variação cambial, preços de commodities e condições financeiras globais compõem a análise da autoridade monetária. Caso a escalada do conflito amplifique a aversão ao risco, pressione o dólar ou provoque elevação persistente das commodities energéticas, o espaço para cortes mais profundos pode ser reduzido. No curto prazo, o câmbio costuma ser um dos principais canais de transmissão, enquanto o petróleo impacta diretamente combustíveis e custos produtivos.

O economista César Bergo avalia que os efeitos do conflito podem se ampliar caso haja prolongamento da crise. Segundo ele, conflitos armados geram incerteza quanto à sua duração e desdobramentos, o que dificulta projeções econômicas. Bergo afirma que a alta do petróleo já provoca distorções no mercado de energia e pressiona a inflação global, influenciando a política de juros. Ainda assim, ele também acredita que o corte deve ocorrer em março, embora haja dúvida quanto à magnitude. Para o economista, a redução de 0,50 ponto percentual é a mais provável, mas o cenário permanece sujeito a revisões.

O principal risco apontado pelos analistas é uma elevação persistente do petróleo que se espalhe por toda a economia. Bergo destaca que aumentos expressivos e duradouros podem pressionar a inflação, especialmente se os reajustes forem mantidos ao longo do tempo. O impacto inicial ocorre nos combustíveis, mas tende a avançar para custos de transporte, logística e produção, encarecendo bens e serviços ao consumidor. Esse efeito em cadeia pode comprometer a trajetória de queda da inflação e exigir maior cautela por parte do Banco Central.

Mergulhão ressalta que o petróleo exerce influência ampla sobre a economia global, afetando custos de transporte, produção e distribuição. Como resultado, oscilações relevantes na commodity acabam refletindo em diversos segmentos da cadeia produtiva. O efeito final é sentido em praticamente todos os setores, o que amplia a preocupação com a possibilidade de contaminação inflacionária.

Além da dinâmica do petróleo, o ambiente internacional inclui decisões de política monetária em economias centrais, como Estados Unidos e Europa, que também impactam fluxos de capitais e o comportamento do câmbio no Brasil. Segundo Bergo, a geopolítica internacional integra o conjunto de fatores observados pelo Banco Central. Em caso de deterioração mais intensa do cenário externo, a tendência não seria interromper o ciclo de cortes, mas adotar uma postura mais gradual, prolongando o período de juros elevados e seus efeitos sobre crédito, consumo e atividade econômica.

Diante desse contexto, o mercado mantém a expectativa de início do ciclo de redução da Selic na reunião de março, mas reconhece que a trajetória futura dependerá da evolução do conflito, do comportamento do petróleo e das expectativas de inflação. O cenário externo mais volátil adiciona cautela à condução da política monetária, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo dos riscos que podem influenciar a economia brasileira nos próximos meses.

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